O que eu queria de volta
Por quê tenho pensado tanto em satisfação? Em vida realizada? Em felicidade plena? Cada vez me convenço mais de que felicidade tem muito a ver com o verbo "estar" e nada com o verbo "ser". Olho pra mim e me vejo esperando sempre mais da vida. Por quê é difícil contentar-me? Do alto dos meus trinta e um anos não deveria saber que não se pode ter tudo? Quando lembro da minha infância, e comparo a menina que fui antes com a mulher que sou hoje, fica evidente a diferença no modo de ver as coisas que me cercam.
Fui uma criança humilde. Nunca passei fome nem fiquei sem ter onde dormir ou o que vestir... Mas também não tive o luxo (prá mim era luxo...) de ter um quarto só pra mim, ou bonecas que andassem, falassem ou fizessem, sei lá o quê, sozinhas... E o que eu tinha me bastava. Tinha amigos e brincava com eles: os filhos dos vizinhos que moravam no cortiço ao lado. Crianças de pé no chão e nariz escorrendo... E acreditem ou não, eu era rica perto deles. Aprendi com eles a dividir meu pedaço de pão e meu picolé. Aprendi que o que era de um podia ser de todos. E que as árvores do fundo do quintal da minha casa eram mais interessantes que qualquer outro brinquedo fabricado pela mão humana.
Comi pitanga estragada, goiaba bichada e amora suja de terra... Dividi bala, pirulito, bolacha Maria e o que mais aparecesse. Subi em muro, telhado, árvore, tampa de poço... Pisei em prego enferrujado, caco de vidro, lesma e taturana... Tomei picada de abelha e marimbondo, mordida de cachorro, arranhão de gato... Apanhei de mão, chinelo, cinta, cipó... Brinquei de casinha, carrinho de rolimã, pipa, mãe da rua, médico, salada mixta... Esfolei o joelho e o cotovelo mil vezes andando de bicicleta, e sujei minha roupa deitando no chão pra ver as nuvens ou as estrelas... Cacei e abri ovos de lagartixa escondidos nos buracos das paredes do quintal... Acendi bituca de cigarro jogada no chão e fumei por curiosidade... Me apaixonei na terceira série pelo menino que sentava comigo na carteira dupla só porque o braço dele encostava no meu enquanto escrevia, e nunca esperei que correspondesse ao meu afeto.
Na escola fui boa aluna: sempre a menina de maria-chiquinha que tinha que sentar lá na frente por causa dos óculos (necessários desde os três anos de idade), prá conseguir ler tudo direito. Minha escola não tinha cantina e todos comiam o macarrão, a sopa, o pão com chocolate quente ou o arroz doce da merenda... E ninguém reclamava. Os meus amigos da vizinhança estudavam lá comigo. Íamos e voltávamos juntos fazendo planos para a tarde.
Eu e meu irmão, um ano mais novo, viviamos feito cão e gato, brigando, mas nenhum tinha dúvidas sobre a lealdade do outro. Éramos cúmplices em tudo, graças a Deus.
E por falar em Deus, minha relação com Ele era muito mais simples. Eu não precisava ir à igreja ou passar horas recitando palavras decoradas para que me ouvísse. Bastava falar com Ele antes de dormir, ou mesmo dormir enquanto falava com Ele... E eu sempre pedi pouco. Havia algo que sempre estava em minhas orações: eu queria que Deus desse vida eterna a todas as pessoas da minha família, inclusive eu. Pedia que nunca ninguém tivesse que morrer, e felizmente Ele foi bondoso comigo. Quando o primeiro parente mais próximo faleceu, eu já tinha vinte e um anos. Parece que Ele esperou que eu crescesse e entendesse o que é a morte pra depois começar a levar os meus.
Amor era apenas mais uma palavra difícil de explicar... E sem querer, eu sabia tudo sobre ela... Mesmo sem ler ou escrever direito.
Minha vida ficava completa com um sábado no circo do bairro, Transfer, Spectroman, O Elo Perdido, bolo Pulman, cabana de folha de bananeira, doce de abóbora, bala puxa-puxa feita escondida da mãe, ki-suco, Sitio do Pica-pau Amarelo, almoço de domingo na casa da Dinha (minha avó querida), música de Roberto Carlos, álbum de figurinha, Baré Cola e bolha de sabão.
Hoje me pergunto onde foi parar essa menina e todas as coisas que ela aprendeu com as crianças do cortiço e da escola? Porquê não consigo me sentir como ela? Porquê tenho que lavar tanto minhas mãos e pentear tanto os cabelos? E prá que me preocupar com a roupa que devo usar aqui ou ali? Ela nunca pensou nisso, nunca se importou com isso...
O tempo muda a gente. O mundo muda a gente. A vida muda a gente. Apesar de tanta mudança, espero apenas não perder a lembrança de todas as coisas boas e ruins que vivi na infância. Pode ser que algum dia a menina retorne e queira seu lugar de volta...
por Jackie às 3:47 PM