Tarde demais pra falar no sábado retrasado?
Acredito que não exista nada que levante mais os ânimos de uma mulher do que fazer compras. Mais especificamente comprar roupas. Passar horas dentro de uma loja de artigos femininos experimentando, provando, combinando peças... Depois levar tudo pra casa e vestir de novo combinando com as peças de lá. Terapia nenhuma supera os benefícios que esta ação causa nas mulheres. É fato. Homens quando precisam gastar seu rico dinheirinho com algum item do vestuário, tendem a comprar na primeira loja que encontram, a primeira peça que os agrada, e , de preferência, sem usar o provador. Mulher não... Mulher olha.. Deixa de lado... Olha de novo... Experimenta... Pergunta pra amiga se ficou legal (sim, porque se não tiver uma amiga do lado pra palpitar, "a coisa demora ainda mais pra andar"...) Escolhe dez blusinhas iguais àquela que ela adorou, mas cada uma de um tamanho e cor diferente, pra experimentar e ver qual fica melhor. Depois lembra que o sapato e a saia que estão em casa não vão combinar com a tal, e deixam tudo amontoado na primeira prateleira que encontram, para o deleite das balconistas de plantão. Eu sou assim... Confesso aqui minha fraqueza enquanto exemplar do gênero feminino pertencente à raça humana... Eu também adoro encher minha cestinha com vinte e três peças, provar uma a uma e levar somente três.
Mas isso tudo é pra que mesmo?!?.... Ahhh... É pra falar do sábado retrasado. O meu "terapêutico e revitalizador" sábado...
Sábado às 2 da tarde, mais ou menos:
-- Pronto.. Já podemos ir.
-- Ok. Te levo e depois vou te buscar.
-- Vê se não esquece de dar alguma coisa pro Dé comer... e olha a fralda dele de vez em quando... e não vai dormir no sofá e deixar o menino prá lá e pra cá sozinho.. (e mais umas cento e vinte recomendações que toda mãe faz quando precisa deixar o bebê somente com o pai).
Minutos depois na porta da loja:
-- Quer que eu venha daqui há quanto tempo?
-- Ah! Isso eu não sei... Melhor esperar que eu telefone pra avisar.
-- Mas e se não tiver um telefone público por aqui? Acho melhor combinar um horário.
-- Que nada!!! Acha que não vai ter telefone por aqui? Sempre tem um telefone público por perto nesse país...
-- Tá bom então... Me liga depois...
Por alguns instantes olhei a loja, deslumbrada com as inúmeras possibilidades que se apresentariam após minha entrada. Estava sozinha... Sem marido prá me lembrar da hora... Sem filhos prá correr atrás. Iniciei então minha busca pela combinação perfeita. Esqueci do tempo entre as diversas prateleiras e cabideiros giratórios (não sei o nome daquilo). Em determinado momento notei um vulto baixo parado ao meu lado. Olhei... Era uma menininha japonesa que me observava curiosa. Devia ter pouco mais que dois anos de idade. Olhava fixamente prá mim com seus olhinhos arregalados como se estivesse diante de um ET. Com certeza meus traços ocidentais deveriam estar lhe chamando a atenção. Esbocei um sorriso e fui para outro corredor. Passaram-se poucos minutos e novamente senti a pequena presença ao meu lado. A menininha incomodada comigo estava me seguindo. Experimentei mudar outra vez de corredor, e outra vez ela veio. Achei engraçado e resolvi ignorá-la. Continuei vendo as roupas, e ela sem piscar, me olhando. Perguntei sobre sua mãe e ela continuou inerte, sem responder. "Será que é surda?", pensei. "Nossa, tão pequena e tendo que passar por isso". Mal finalizei a idéia e percebi uma mulher que apareceu na entrada do corredor onde estávamos, chamando alguém. A menininha olhou pra trás, olhou novamente prá mim e saiu em direção à tal mulher... "Pelo menos ela não é surda", pensei aliviada...
Mais algum tempo se passou... "Agora deixe-me ver o que tem de sapato por aqui..." E de repente, quando ía à seção de calçados, escuto um "psiu"... "Psiu?!?.. Isso é coisa de brasileiro..." Olhei na direção do barulho e reconheci o rapaz parado olhando prá mim. Era um colega... desses que a gente só encontra em mercados, vídeolocadoras e eventos que reúnam grande número de pessoas... Desses prá quem se diz: "Passa em casa"... sem dar o endereço. Fui cumprimentá-lo:
-- Oi Jaque, tudo bem?
-- Tudo...
-- Nossa.. mas você tá doente?
-- Eu não!!! Porquê?!?
-- Tá magrinha!!!
-- (..."ok... melhor ouvir isso do que ser surda... pelo menos estão percebendo que você perdeu peso, e isso é o que importa..") Não era bem isso que eu queria ouvir, mas tudo bem...
-- Hã?!?
-- Deixa prá lá...
E ficamos um tempo de papo. A namorada dele, que saiu de um dos provadores, veio até nós... e de novo o papo de emagrecer... e do cabelo tão curto... e blá bláblá...
Novamente entregue ao sossego da blusinhas e saias. "Ok... tomara que não apareça mais ninguém pra me dignosticar quanto ao emagrecimento..." E detive minha atenção numas jaquetas que haviam ali. De repente olho pro lado e percebo uma japonesa vindo em minha direção. Sem me olhar ela se abaixou, pegou "minha" cestinha com as roupas que havia escolhido e saiu andando sem dar satisfação...
-- Sumimasem!!! (Só deu tempo de dizer isso... chamei ela com um "me desculpe...")
A mulher ensaiou um sorriso e depois seguiu em frente. Fiquei ali parada por alguns instantes, sem entender nada...
"O que ela quer com minhas roupas?!?... E porque não falou nada?!? "
Demorou pra cair a ficha. Tava na cara que a japinha confundiu a minha cesta com a dela. Raciocinei: "Se ela está com a minha cesta, significa que a dela está abandonada em algum lugar por aí. "
Comecei então a busca pela suposta cesta trocada. Dei uma vasculhada por perto e encontrei a pobre jogada num canto qualquer. Fui procurar pela dona. Dei com ela próxima ao caixa, experimentando óculos escuros. Refleti uma última vez:
"Chamo e aviso sobre o engano com a cestas ou espero por ela lá fora já com tudo pago e agradeço a gentileza?"
Minha consciência me fez escolher a prineira opção. Mostrei a ela sua cesta verdadeira e percebi o tamanho do embaraço com que a moça me pediu desculpas... Foi engraçado. Falei pra não se preocupar e voltei às compras.
Hora de sair da loja. Agora precisava de um telefone público pra ligar e avisar que havia terminado. Assim meu marido viria me buscar. "Não vai ser muito difícil..." Olhei pra um lado só ví plantação de arroz. Olhei pro outro, casas. "Tem uma praça lá... Praças costumam ter telefones públicos"... Andei até lá... Não tinha... Andei mais em frente.. Nada... Virei algumas ruas... Nada... 10 minutos e nada... 5 da tarde, a temperatura baixando, o salto da sandália começando a pesar e nada... 20 minutos e nada... Meia hora caminhando e consegui chegar até uma loja de departamentos conhecida... Ali era certeza. "Porque não aceitei a sugestão dele de marcar um horário pra vir me buscar?... Assim não estaria gastando as pernas e me arriscando a pegar um resfriado nessa friagem..." Liguei e combinei de esperar à frente de uma loja de conveniencias que tinha do outro lado da rua. "Calma Jaque.. Agora você está a salvo... É só esperar mais um pouquinho..." Como sabia que ainda ficaria ali por uns quinze minutos, resolvi comprar algo prá mastigar na convinience store. Entrei e fui direto no freezer escolher um sorvete... "Já que estou congelando por fora, vou congelar um pouco por dentro também.." Algo parecido com um bolo me chamou a atenção. "Deve ser bolo recheado com sorvete. Tem um troço branco de recheio... Vou experimentar..." Voltei pro meu posto abrindo a embalagem do tal Cake. Com a primeira mordida notei que estava um pouco duro... "Acho que o freezer está forte." Continuei comendo com certa dificuldade. Haviam uns pedaços de frutas no recheio que pareciam pedrinhas. Insisti mais um pouco.. Virei a embalagem e, sem querer, vi a imagem de um microondas desenhada. Era bolo congelado e não sorvete. Era bolo pra colocar no microondas por poucos segundos e comer depois. Eu já havia comido três quartos daquela coisa. Minha língua estava adormecida. "Pronto... agora só falta chover..." Olhei pro céu e rezei pra ele chegar antes do temporal... Logo pude avistar o carro. Respirei aliviada..." Uffa!!! Que sábado..."
.:. acho que exagerei no tamanho... será que alguém vai ter paciência prá ler tudo?
@__@ post regado a "Dance", Jamiroquai
por Jackie às 1:19 AM