Retrato do meu quarto
Meu quarto é silêncio quando à noite eu chego.
De portas fechadas pro mundo, ele é todo meu.
É aconchego, é privacidade,
É todo o meu íntimo reservado num só espaço:
Meu quarto.
Esses quadros de "famosos" na parede
Entendem bem que, no meu quarto,
A estrela maior sou eu,
E por isso, limitam-se a olhar, sem opinar.
Meus objetos, meus dias... Todos guardados ali.
Meus prantos, minhas alegrias,
Foram todos destinados a viverem no meu quarto.
Fora dele, a história segue:
É família, é vizinhança,
É latido de cachorro quando passa alguém estranho.
Fora dele o tempo é instável:
à vez chove, à vez faz sol...
Mesmo dentro de casa, a tv não pára, o rádio não cala,
E eu, tranco bem a porta do meu quarto
Para que nada o invada,
Para que nenhum ruído incômodo escape de fora do mundo.
Me procuro no silêncio,
Me encontro no meu quarto...
E se um dia, por má sorte,
For condenada a viver encarcerada,
Me tranquem no meu quarto.
Nele permanecerei em silêncio...
E em paz.
Eu devia ter uns dezenove quando esse poema nasceu. E nasceu no meu quarto... Refúgio da minha vida, naquela época. Gostava realmente de me isolar ali e... confesso que não perdi o costume. É necessidade minha estar sozinha em certos momentos, à noite principalmente, quando creio que o pensamento é mais livre. Pelo menos o meu... E sendo mais livre, avista muitas possibilidades. Pensar sozinha (a madrugada é perfeita prá isso) ecoa na alma. Não é tão solitário, nem tão silencioso assim.
"Pensar incomoda como andar à chuva quando o vento cresce e parece que chove mais", concluiu Fernando Pessoa. Eu me agrado com esse incômodo. Peço andar à tempestade. Sofro às vezes, mas é uma das maneiras mais contundentes de sentir a vida.
Pensar é bom.
.: Música do dia "Canção do Lobo", Oswaldo Montenegro.
por Jackie às 3:37 AM