Canção das Mulheres
- Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
- Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
- Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva, saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
- Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
- Que, se eu faço uma bobagem, o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
- Que se estou apenas cansada, o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
- Que o outro sinta quando me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade, mas, talvez seu medo ou sua culpa.
- Que se começo a chorar sem motivos depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.
- Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cumplice, mas sem fazer alarde nem dizendo: "Olha que estou tendo muita paciência com você!".
- Que se me entusiasmo por alguma coisa, o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.
- Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
- Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: "Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!".
- Que se peço um segundo drinque no restaurante, o outro não comente logo:"Poxa, mais um?".
- Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
- Que o outro - filho, amigo, amante, marido - não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
- Que, finalmente, o outro entenda que, mesmo se às vezes me esforço, não sou nem devo ser a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma MULHER.
(trecho do livro de Lya Luft - "Pensar é Transgredir")
por Jackie às 7:57 PM